RIO DE JANEIRO X VIOLENCIA
Que se instale um chip
A hora seria de se preparar para o carnaval e, no entanto, mais uma vez estou aqui juntando os trapos aos quais eu sempre fico reduzida toda vez que a realidade produz atos de extrema violência. E eles são cada vez mais dolorosos e corriqueiros.
Ter que renascer depois de cada morte violenta que se estampa nos jornais. Ter que sair por aí buscando esperança e alegria de viver. O resultado é um bloco que arrasta a sandália, e todos vão tão cabisbaixos, pensando: vai ver a vida é isso mesmo, banal e sem sentido, irreal e rápida, trocada por qualquer troço. Não. Não quero esse bloco para mim. Sei que ela é bonita e é bonita. Junto os trapos porque sei bem o que ela é e o que eu quero que ela seja.
E o que eu quero mesmo é ter certeza de que este é um mundo de seres humanos. Não é muito, mas também não é tudo. Quero ainda que o mundo deixe a infância lá no canto dela, sendo infância. Isso eu quero com todas as minhas forças, mas também não é tudo.
Eu quero sair correndo, voando, com pressa e urgência para inventar um novo chip.
Um programa de computador para ser instalado de preferência na hora do parto.
Junto com a primeira respiração eu quero um programa que se instale e que torne cada ser humano, humano. Eu quero garantias que uma vez instalado ele nunca se apagará. Não será permitido não ser humano. E não venha me dizer que as notícias que as pessoas fabricam com seus atos e palavras são de seres humanos. Não seríamos todos anjos e santos com esse chip. Continuaríamos com a nossa pendenga diária e com nossas dores e dificuldades e feiúras, mas estariam instaladas a compaixão, a generosidade e a extrema valorização da vida.
O que eu quero é tão simples.
Eu quero chips transformados em leis, em ordem e em progresso.
Não o progresso do país, mas o progresso de algo bem mais complicado: o progresso do ser humano.
Valéria Grassi é escritora.
Escrito por ee.mello às 08h24
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